| "A leitura de um grande livro é muito mais rica que assistir a um grande filme" |
Steven Spielberg |
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30/11/2007 Uma velha livraria É possível que entre os meus leitores haja alguns poucos que ainda se recordem de uma antiga livraria, que existia, há uns anos, nas imediações de Covent Garden: digo poucos, porque certamente para a grande maioria da gente, muito escasso atrativo possuíam aqueles preciosos volumes que toda uma vida de contínuo labor havia acumulado nas empoadas estantes do meu velho amigo D. Ali não se encontravam tratados populares, nem romances interessantes, nem histórias, nem descrições de viagens, nem "Biblioteca para o povo", nem "Leitura recreativa para todos". O curioso, porém, podia descobrir ali uma rica coleção de obras de Alquimia, Cabala e Astrologia, que um entusiasta conseguiu reunir e que, em toda a Europa, talvez, era a mais notável em seu gênero. O proprietário tinha gasto uma verdadeira fortuna na aquisição de tesouros que não deviam ter saída. Mas o velho não deseja, na realidade, vendê-los. O seu coração não se sentia bem, quando um freguês entrava em sua livraria; ele espiava os movimentos do intruso, lançando-lhe olhares vingativos; andava ao redor dele, vigiando-o atentamente; fazia carrancas e dava suspiros, quando mãos profanas tiravam de seus nichos algum dos seus ídolos. Se, por acaso, a alguém atraía uma das sultanas favoritas do seu encantador harém, e o preço dado não lhe parecia ser demasiado exorbitante, muitas vezes era duplicado esse preço. Se vacilava um pouco, o proprietário com vivo prazer, lhe arrebatava das mãos a venerável obra que o encantava; se aceitava suas condições, o desespero se pintava no rosto do vendedor; e não eram raros os casos que, no meio do silêncio da noite, vinha bater à porta da moradia do freguês, pedindo-lhe que lhe vendesse, nas condições que desejasse, o livro que havia comprado, pagando-lhe tão esplendidamente o preço estipulado. Um crente admirador do seu Averrois e do seu Paracelso, ele sentia a mesma repugnância, como os filósofos que havia estudado, em comunicar aos profanos o saber que tinha adquirido. (Trecho da introdução escrita em janeiro de 1842, em Londres, de “Zanoni – romance ocultista” (Pensamento),deE. Bulwer Lytton) 23/11/2007 Livros, amor de poeta "Você quer saber qual é o meu pecado? É que eu não me farto de livros embora eu os tenha mais talvez que o necessário. Acontece que essa caçada é igual às outras: o sucesso espicaça o desejo. Além do mais, os livros têm uma atração singular exclusiva deles. O ouro, a prata, as pérolas, um traje de púrpura, uma casa de mármore, quadros, um campo bem cultivado, um cavalo ricamente arreado, todas essas atrações e tudo o mais proporcionam apenas um prazer chocho e superficial; só os livros levam a satisfação até o fundo da alma. Eles nos falam, nos dão conselhos, se unem às nossas vidas, graças a uma familiaridade harmoniosa e ativa". O texto acima, publicado em “Cartas”, de 1366, é de Francesco Petrarca (1304/1374), poeta e humanista considerado o inventor do soneto e um dos “pais” da língua italiana moderna. Petrarca morreu lendo na pequena casa que ele próprio construiu em Pádua. Cercado de livros tinha aproximadamente 200 volumes, quantidade considerável numa biblioteca particular daquela época. O poeta amava os livros: "Companheiros misteriosos que, de todos os, países, os séculos conduziram ao meu regaço, ilustres por sua linguagem, por seu gênio. Eles não são difíceis: um canto da minha modesta casa basta para acomodá-los: eles são dóceis, sempre atentos aos nossos chamados, jamais importunam. Afastam-se quando o desejamos e correm para nós ao primeiro aceno". 30/10/2007 Epitáfio de leitor |
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| Procurei em toda parte a paz e a tranqüilidade e só as encontrei sentado num rincão agradável, tendo um livro nas mãos (Inscrição no túmulo do monge Thomas de Kempis (1379/1471) na Holanda) |
| 17/10/2007 Tesouro da Juventude Paulo Ludmer pludmer@hotmail.com Abri a capa azul-celeste das alturas. Dura, quase madeira. O Tesouro da Juventude, volume lI. Sim, dois romano de uma pilha de dezoito. Nunca mais esqueci a grafia. Tateava o livro no pequeno quarto do velho apartamento, deitado na cama da esquerda, enquanto meu irmão, o primogênito, iniciava a leitura do volume I, à direita. O papel grosso, brilhante, ilustrações em cores, parecia conter gravuras e pinturas originais. Da porta, mamãe disse: "Boa noite, leiam tudo, a enciclopédia foi cara". Então, sem discutir, nós lemos. Provei a inescapável anarquia lendo os tomos pela ordem que desejasse. A seqüência dos meus primeiros contatos com Cervantes, Dante e Sócrates não obedeceu a critérios senão o do acaso, pelo qual me embeveci. Atravessei madrugadas adorando o cheiro das páginas de estalidos. Nem lembro quantas semanas depois devorei o texto em que Abrahão questionava D'us, sobre a justeza da extinção de Sodoma e Gomorra. - Se houver dez inocentes na cidade, não a destruo, Dele ouviu o patriarca, que ousou debater com a divindade, ensinando que o homem pode pensar antes de aceitar. Obrigava-me a ler O Livro dos Porquês ou qualquer tema. Letra a letra, feito sargento em missão. Resistia a pular parágrafos, ainda obediente à determinação de minha mãe e à responsabilidade pelo custo de minha educação. Depois, nas idas à biblioteca do Colégio Estadual de São Paulo, conheci a Enciclopédia Britânica, maior, mais completa e mais cara do que o jovial almanaque de saber. Conheci, assim, limites inexistentes para alguns alunos ricos, que a possuíam em casa - sem cobrança de aproveitar linha a linha. Havia lido Leandro Dupré - Montanha Encantada e Ilha Perdida -, além de Monteiro Lobato - Sítio do Pica-Pau Amarelo. Papai também trazia regularmente os gibis do Zé Carioca ou do Pinduca, de forma a consolidar nosso hábito. Tempo de calças curtas, matinês e novelas no rádio. Almoço no Centro, no Hotel d'Oeste e, na Ponta da Praia, em Santos. O Tesouro seguia junto, para lermos nos passeios. Impregnava Sísifo, Medusa e Prometeu. Juntos, envelhecemos. Só a imaginação permaneceu acordada em sonho perfumado e emoções alheias. O Tesouro ficou em meus embarques nos regatos das noites. A anarquia privou-se de poder viger sempre. Dissolveu-se como os coquinhos e jacas do Jardim da Luz da infância, orvalho e frescor. Meu estilingue da Rua da Graça quebrou o néon da relojoaria em cacos, cujos sons ainda estilhaçam a memória de culpa e terror. O desenho do bodoque, copiei de uma ilustração, vestígio de consciência, desalinho e crepúsculo. Grandes palavras, medulas, alinham-se como estátuas móveis; e, mesmo as de menor esqueleto reverberam sem inferioridade e renúncia. As pequenas, por sua vez, fazem chuvas sem respeito e irrigam pó na lama de tudo. Todas cansam pálpebras. Meus filhos não perceberam, ao herdar a tralha do Tesouro sem serventia, de que se introduzia no céu sem terra, romance sem enredo. Desconsolo, eleito no desdém, no casulo de nada. Professor de Comunicação da FAAP, músico, engenheiro, Paulo Ludmer está lançando neste outubro de 2007, em São Paulo e Porto Alegre, seu sexto livro. “Fonte” (Editora AGE), reúne textos curtos que misturam memórias e ficção, servindo-se de prosa poética, crônica e poesia, alinhavados numa São Paulo do século passado. O texto acima integra esta nova obra de Ludmer. 5/10/2007 |
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