Canto do livro
Maricá (RJ) - Ano VII - N° 96 - Outubro / 2009 - Leitores & Livros ©


Papeis de gaveta

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Luiz Gadelha
Luiz Gadelha, formado pela Escola de Comunicação/UFRJ, depois de três décadas de trabalho nas redações de O Globo, O Dia, A Notícia, Jornal dos Sports e TV Globo, criou os jornais “Oxente”, sobre cultura popular nordestina, e “Leitores&Livros”, ambos com referências até no exterior. Com a mulher, fundou em 2004 a livraria Canto do Livro em Maricá (RJ)

Diário de livreiro

(fragmentos)
 

Gente estranha

Livreiros são gente muito estranha. Talvez por viverem entre livros imaginação não falta a eles, nem muito menos vontade de realizar os sonhos. No entanto, de todos, o que mais surpreendeu com seu ideal foi o catalão Josep Maria Bocabella i Verdaguer. O livreiro, um fervoroso católico, que em 1866 criou a Asociación Espiritual de Devotos de San José, entidade para difundir o catolicismo, lançou, em 1882, a pedra fundamental de uma igreja, no terreno de 12.800 m²  entre as ruas Mallorca, Provenza, Marina e Cerdeña, em Barcelona, que Verdaguer comprou por 172 mil pesetas (1.034 euros atualmente). Um ano depois, o livreiro acreditou nos planos de um jovem arquiteto e os dois se apaixonaram por uma construção que nunca veriam completada.
O templo a que se dedicaram passaria anônimo na história se não fosse a igreja da Sagrada Família, a maior obra de António Gaudí, aquele jovem arquiteto em que Verdaguer acreditou. Os dois estão enterrados na cripta. Na capela de Santo Cristo, está o corpo do livreiro e, na da Virgem do Carmo, a de Gaudí.
 

Ameaça

Foram-se há muito os anos de tacão de ferro e a mãe procura para o filho o livro “Manifesto comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels. Pega o volume e reserva, enquanto fica vasculhando as prateleiras. Mas não se contém. Pede aflita uma orientação ao livreiro:
 - Será que esse livro não faz mal aos jovens?
 

Grito para o sobradão

Livreiro recém-instalado num velho sobrado do Centro carioca ainda aprecia a arrumação das estantes, quando ouve um grito na estreita e movimentada rua: - Ô da livraria!
Quando atende da sacada, uma senhora pede:
- O senhor pode ver se tem aí um livro para mim? Eu não vou subir essa escadaria. 
 

Marcador da esperança

Era o ano tempestuoso de 1968 e a viação rodoviária pagava 6 mil cruzeiros novos por morte em acidente.O leitor se refugiava no dicionário. O
bilhete da viagem marca sua parada na letra E. O povo também esperava para embarcar na esperança.
 

Barriga cheia

Livraria tem que ser como barriga de vira-lata: estar sempre cheia
(Recolhido de um velho livreiro)
 

Limpeza seleciona amigos

Limpar estantes é se desfazer de velhas preferências. Aquele autor  que tanto encantou na juventude já não tem o mesmo sabor com o passar dos anos. Livro, como o vinho, precisa da decantação das estantes. O tempo deixa marcas no leitor que nem todo livro encantado de ontem pode agradar hoje.
A estante fica mais limpa com o tempo. Mais vazia, menos pesada. No entanto, mais arejada e mais selecionada, encanta o leitor que passa a conviver com os verdadeiros amigos que escolheu para todo o resto da vida.
 

O manual do bom profissional

As pequenas livrarias têm que ampliar sua capacidade de compra e seu acervo muito mais do que seguir o ritmo das novidades editoriais
A especialização não é um requisito para sobreviver como livraria pequena. É uma opção tão válida como continuar sendo generalista
O livreiro tem que preocupar-se em compreender o fenômeno leitor. Para isso tem que estar atento às tendências e correntes de pensamento, aos gostos de sua clientela, seguir pistas, estar inquieto. Dessa forma se converterá em um bom recomendador de livros, que é o que buscam os clientes das pequenas e médias livrarias.
Nunca se comprou tanto livro nem se leu tanto de forma que o vendedor não pode concordar com a mensagem de que se lê pouco.
A livraria tem que ser um espaço cultural agradável e limpo onde o cliente se sente cômodo e pode olhar os livros com calma. Essa é a ferramenta que deve ser manejada. Os grandes locais atacadistas passaram à história
O funcionário tem que ter conhecimento e sua formação é cara. Mas o grande negócio é definir que livros vender. Afinal isso é o que distingue cada livraria

(O texto acima foi retirado da reportagem “El pequeno librero no ha muerto”, de Ignácio F. Zabala, na revista espanhola DEVA-comunicação financeira, em sua edição de 19 de setembro de 2007)
 

Lição do livro

O livreiro, em seleção de livros, separa um deles para o “depósito”. Para que ocupar a prateleira com aquela autora tão pouco conhecida, fora das badalações críticas? O espaço com os tais “esquecidos” serve para se colocar os “vendáveis”. Ficou um dia encostado. Na manhã seguinte, surgiu leitor procurando tudo o que aquela autora publicou. E o livreiro se lamentou de ter dela apenas um título. Mas aprendeu que livro, qual seja sua importância, tem sempre um leitor à procura.
 

Diário de livreiro

(fragmentos)
Dever que é uma exceção
“Emprestar é um prazer; devolver é um dever”. (Frase encontrada em um livro mostra um leitor muito compenetrado de seus deveres, num país em que raros respeitam os bens, alheios e públicos, ainda mais se tratando de livros)
O primeiro nunca se esquece
O livro que se compra hoje pode ser um marco. A leitora, em Diário de Wanda (Retour, 1983), de Wanda Pazybylska, registrou o motivo da importância do livro em sua vida: “Foi o primeiro que comprei com meu próprio dinheiro (R$ 2). Fiquei tão feliz!”.
Princípios da ‘boa’ biblioteca
Leitor inveterado encontrou o dístico para o próprio ex-libris: “Não emprestar, nem devolver”. Segundo ele, esses devem ser os princípios básicos de uma boa biblioteca.
 

O ‘nojento’

Duas jovens passam na porta da livraria e uma delas exclama:
- Isso aqui é um sebo!!!
- Ai, que nojo, diz a outra
 

Vale o que está escrito

Chega à livraria mãe com lista de livros pedidos pela conceituada escola. O livreiro consulta o papel. “Alexandre Dumas nunca escreveu Dom Quixote, que é de Miguel de Cervantes”. E acrescentou: “Esse livro assinado por Dumas a senhora nunca vai encontrar”.
A mãe fuzila o ignorante livreiro, quase esfrega na cara dele o folheto da escola, que conhece o que pede. Sai ela convencida de que livreiro não tem mesmo cultura.

E o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra deixa de ser autor do primeiro romance da literatura mundial e sua obra-prima é “assinada”, segundo aquele colégio, pelo folhetinesco francês Dumas, autor de Três Mosqueteiros e O Máscara de Ferro, entre outras obras.
 

Estiva cultural

Sobe e desce escadas, arrumando livros em prateleiras; carrega amarrados de livros, livros em sacolas, em caixas de papelão. O trabalho pode ser mesmo em feriados e fins de semana para deixar a livraria arrumada para receber os fregueses. Tanto exercício já fez um livreiro, cansado, suado e com as mãos cheias de poeira, parodiar um ministro da Educação: “Agora estou estivador cultural”.
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